Novas regras da SEC para criptoativos não deverão trazer de volta o boom das ICO
Fonte: Cointelegraph·Publicado em 26/08/2026 às 14:00

A Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos apresentou a 18 de agosto uma proposta de regulamentação para criptoativos que poderá facilitar vendas públicas de tokens no país, embora especialistas considerem improvável o regresso da mania das ofertas iniciais de moedas que marcou 2017. Conforme reportado pela Cointelegraph, a proposta cria duas isenções distintas para contratos de investimento envolvendo criptoativos.
A primeira isenção destina-se a startups e permite angariações até 5 milhões de dólares durante um período de quatro anos. A segunda isenção, modelada parcialmente sobre a Regulation A existente, permite angariar até 75 milhões de dólares em cada período de 12 meses, acompanhada de requisitos de divulgação e reporte contínuo. Esta estrutura rotativa poderia permitir que projetos angariassem 75 milhões de dólares, desenvolvessem a rede durante um ano e regressassem para nova ronda de financiamento.
Drew Hinkes, sócio da Winston & Strawn, confirma que a limitação de 12 meses permitiria "angariações em série" de 75 milhões de dólares, desde que sejam ofertas efetivamente distintas. Lilya Tessler, da Sidley, esclarece que cada nova angariação exigiria submeter uma nova declaração de oferta e passar por revisão da SEC, além de manter relatórios anuais e semestrais. Os emissores teriam ainda de divulgar quanto angariaram sob a isenção nos 12 meses anteriores para verificação do limite.
Lee Reiners, especialista em regulação financeira da Universidade Duke, não antecipa o regresso da euforia de 2017, sublinhando que os mercados de angariação de fundos são moldados pelo apetite dos investidores, economia dos tokens, liquidez e os danos reputacionais deixados pelo último ciclo de ICO. Entre 2017 e 2019, até 90% dos projetos financiados via ICO acabaram por falhar, deixando uma geração de investidores queimada por promessas extravagantes e tokenomics deficientes.
A proposta também limita investidores não qualificados a aplicar apenas 10% do maior valor entre o seu rendimento ou património líquido em qualquer venda de tokens, independentemente da ronda. Esta restrição impede que investidores menos experientes concentrem demasiado capital numa única oferta, como aconteceu no passado. A SEC estima que cerca de 130 ofertas utilizariam as duas novas isenções anualmente, com aproximadamente 475 emissores a recorrerem ao porto seguro mais amplo para contratos de investimento.
Apesar das salvaguardas, a proposta apresenta potenciais armadilhas. O documento da SEC indica que o contrato de investimento associado a um criptoativo pode continuar a transferir-se para compradores subsequentes em mercados secundários até que o ativo se separe das representações ou promessas do emissor. Hinkes alerta que isto significa que equipas que vendem tokens não classificados como valores mobiliários podem inadvertidamente criar contratos de investimento através das suas declarações, criando problemas para bolsas e outras plataformas de negociação.
Reiners expressa preocupação com a possibilidade de tokens ficarem numa terra de ninguém entre segurança e não-segurança, permitindo que projetos aprendam a operar dentro do novo enquadramento sem abordar as preocupações subjacentes de proteção dos investidores. O advogado especializado em criptomoedas Jake Chervinsky considera positivo que a SEC proponha finalmente um caminho regulatório explícito para angariação de capital, evitando batalhas legais milionárias como as enfrentadas por Tezos e Telegram. A proposta representa um avanço significativo face ao status quo, mesmo que não desencadeie uma nova onda especulativa.

